O terrorismo é um meio de luta
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Leonildo Correa -- 22/12/2005
“Quando eu digo que a violência é conseqüência de injustiças e de violações de direitos, muitos leitores "torcem o bico" e criticam a minha afirmação dizendo que estou legitimando a violência como resposta a injustiças e a violações de direitos. Contudo, o que faço é apresentar a realidade e mostrar as cartas que estão na mesa. Cartas que podem ser jogadas ou não, ou seja, as injustiças e as violações de direitos geram o ambiente propício para o surgimento de grupos armados e de ações terroristas. Movimentos que visam abrir caminho para mudança social e obrigar a reconfiguração do sistema vigente.”
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Recentemente um atentado terrorista chocou o mundo. Ocorreu na Rússia, em uma escola cheia de crianças. A polícia invadiu o prédio e centenas de pessoas, a maioria crianças, morreram. Contudo, ainda não se sabe se quem matou mais foi a polícia ou se foram os terroristas. Mesmo assim o fato em si foi um massacre.
A maioria dos governantes do mundo levantaram suas vozes para condenar o ato e avisar/intimidar o resto do planeta sobre o avanço e a ameaça terrorista. Contudo, não lembraram e nada disseram, ou fizeram, sobre os fatos (as causas) que levaram ao atentado.
“O 11 de setembro foi uma tragédia sem precedentes.” Diz algum especialista com interesses na América do Norte. Certamente foi. Porém, não foi maior que Hiroshima. Lá muito mais prédios caíram e muito mais pessoas morreram. A única diferença entre Hiroshima e Nova York é o sorriso do vencedor e os flashes da mídia. Em Hiroshima o sorriso estava no rosto feliz dos americanos, afinal a bomba explodiu e o objetivo foi alcançado. Em Nova York o sorriso foi dos terroristas, pois o feito saiu melhor do que a encomenda.
O que estou querendo dizer é que os terroristas não praticaram, até agora, nenhum mal maior do que aquele praticado pelos Estados que são vítimas do terror. Se os terroristas mataram alguns milhares em Nova York, os gringos e seus aliados mataram centenas de milhares, talvez milhões, com suas bombas, suas guerras particulares e seus embargos. O mesmo se aplica aos russos, aos ingleses, aos chineses e a uma infinidade de outros países imperialista ou ditaduras sanguinárias.
Mas por que todos os governantes do mundo condenam o terror ? Por uma simples razão: porque sabem que ele funciona. Mais cedo ou mais tarde o terror sempre alcança suas finalidades e seus objetivos. Um exemplo claro disso foram os supostos terroristas brasileiros do período militar. Gente que participou da Guerrilha do Araguaia ou que recebeu treinamento em Cuba. Naquela época eram terroristas e hoje são membros do governo federal ou parlamentares. O mesmo ocorreu nos EUA na época da independência americana, assim como na Guerra do Vietnã, etc.
Mas a comparação mais marcante é a do terrorista como vírus. Um ser tão pequeno e microscópico enfrentando um outro que é milhões de vezes maior do que ele: o homem. Mesmo assim, se o vírus tem um eficiente meio de ataque e reprodução em pouco tempo domina seu inimigo. Basta lembrar do vírus da Aids e de sua ação no organismo humano. O que a Aids faz no corpo o terrorismo pode fazer na sociedade.
Outro ponto importante refere-se à força social inerente ao terror ou a simples aplicação analógica da lei física da entropia aos fenômenos sociais. Há várias maneiras de enunciar essa lei, mas talvez a mais completa seja: "Todo sistema natural, quando deixado livre, evolui para um estado de máxima desordem, correspondente a uma entropia máxima". Em outras palavras, pode-se dizer que existem forças inerentes, em um sistema fechado, que tende a destruí-lo, pois o caos constitui o fim de todas as coisas, uma vez que é um sistema otimizado, com máxima desordem.
No âmbito social o terrorismo é um movimento de desordem que afeta um sistema fechado: a sociedade, gerando e alimentando perturbações caótica. Por isso os movimentos terroristas constituem uma manifestação natural das forças inerentes ao próprio sistema e se manifestam com a finalidade de destruir a ordem social ou até mesmo a própria sociedade. Por isso o terror não ataca apenas as instituições ou as autoridades, mas também ao povo que garante a permanência e a renovação das estruturas de opressão.
Além disso, o terrorismo é um meio eficaz para enfraquecer o poderio capitalista, obrigar os poderosos a cederem espaço e recursos para as minorias ou para a maioria subliminarmente controlada. Basta lembrar as conseqüências do 11 de setembro nas bolsas de valores do resto do planeta, no preço do petróleo, assim como a proliferação de discussões sobre as desigualdades e pobreza no âmbito mundial.
Enfim, pode-se concluir que é a exploração, as injustiças e as desigualdades sociais os principais combustíveis do terror, pois quem não tem nada para perder (bens econômicos, liberdade, família estrutura, etc), não teme nada e nem ninguém, possuindo um grande potencial para se tornar terrorista.
Contudo, o ataque direto do terror ao cerne capitalista (as empresas e corporações) ainda é uma faceta pouco explorada pelos terroristas. Para se ter uma idéia do caos que isto pode gerar basta pensar em uma ameaça terrorista dirigida diretamente a um grupo econômico (acionistas e consumidores de determinada empresa ou serviço). Quem ousaria ser cliente ou funcionário de um banco que esta na mira de uma facção terrorista ? Quem ousaria fazer compras em um mercado que pode ter um carro bomba na porta ou um homem-bomba lá dentro ? Quem ousaria consumir o produto de determinada fábrica de alimentos, sabendo que o produto pode ter sido envenenado/contaminado por um algum membro do terror ? Enfim, o terrorismo pode entupir as veias lucrativas do capitalismo e inibir a sua proliferação, pois o consumismo não se expande onde predomina o medo, a insegurança e a desordem.
Neste contexto, o poder central se dobra diante da ameaça terrorista e cede os anéis para não perder os dedos, ou seja, abre espaço para contribuições sociais e para os interesses da coletividade. Contudo, o mal que já foi feito não pode ser apagado e trará conseqüências.
Contra a engenhosidade e a obstinação do terrorismo, o maior exército do mundo é completamente ineficaz, pois se luta contra um inimigo invisível que "caminha entre nós", talvez seja até um de nós. Mas pior do que isto: o terrorismo, assim como a fênix, renasce das cinzas. Israel pode matar todos os líderes terroristas palestinos, mas o terrorismo sobreviverá, pois ele se renova de suas causas e do ódio que inflama cada palestino, devido a opressão israelense. Os EUA podem eliminar todos os líderes da Al Qaeda, mas o terror não cessará, pois ele se nutre das desgraças e explorações que os gringos espalharam pelo mundo islâmico.
Nem toda causa gera terroristas, mas todo terrorista tem uma causa, um fato motivador que o faz agir. Pode ser um fato pessoal ou coletivo, mera ambição ou ideológico. Quem luta, luta por alguma razão ou por algum motivo. Por isso, pode-se concluir que o terrorismo é um meio de luta, uma arma, a mais eficiente de todas. Mas o mais interessante: é uma arma acessível a qualquer ser humano, podendo ser usada para qualquer coisa.
Pode ter metas grandes, como enfrentar o grande satã do ocidente (EUA), ou pequenas, como matar a família da pessoa que me prejudicou, humilhou e desonrou. Pode utilizar meios de grande repercussão, como jogar aviões contra os alvos, explodir carros bombas, ou ser simples e discreto quanto armar uma emboscada e atacar o inimigo pelas costas usando uma besta, uma faca ou um rifle sniper.
O terrorismo em si é neutro. Pode ser bom, se for utilizado contra nossos inimigos; ou pode ser mal, quando nossos inimigos utilizam contra nós. Além disso, pode ser manejado por uma única pessoa (o homem bomba), por um grupo de pessoas (Hamas, Al Qaeda) ou por instituições Estatais (Cia, KGB, Mossad). De uma forma ou de outra, sempre funciona, uma vez que sua meta é matar, destruir e levar o medo ao coração do inimigo, fazendo-o recuar ou realinhar e refazer suas posições, assim como rever seus métodos.
Além disso, pode ser usado para amedrontar a população e fazê-la outorgar amplos e ilimitados poderes ao governante, a fim de que ele cace os terroristas. Mal sabe a amedrontada população que o ato terrorista foi praticado a mando do governante, justamente no intuito de obter os amplos e ilimitados poderes. Mas também pode ser usado em época de eleição, para intimidar os eleitores e obrigá-los a reeleger o candidato que tem planos anti-terroristas ou que se diz “o protetor do mundo contra o terror”.
Pode também ser manejado para perseguir os empedernidos e inimigos que se quer eliminar. Basta cometer um sangrento ato terrorista e enviar um vídeo ou uma carta para algum jornal, assumindo a autoria do atentado em nome do inimigo, em pouco tempo ele será destruído por algum míssil teleguiado ou algum comando especial de plantão. De um jeito ou de outro, o terrorismo sempre funciona.
A luta contra o terrorismo é uma luta perdida, porque o terror se manifesta como uma resposta e não uma causa em si. Não há como eliminar ou inibir as respostas se as causam continuam existindo e produzindo terroristas. Por exemplo, Israel gasta bilhões de dólares para proteger o país contra os terroristas palestinos. Certamente, é um valor muito maior do que a concessão do território e de liberdade aos palestino. Mais cedo ou mais tarde, chorando ou sorrindo, Israel irá reconhecer que não é possível eliminar o terrorismo sem eliminar suas causas, pois enquanto existir a motivação a arma do terror será manejada, uma vez que está ao alcance de todos e, mesmo que se implante na Palestina réplicas dos campos de concentração nazista, com os arames substituídos por muros, e encerre neles todos os palestinos, o terrorismo não acabará, pois sempre haverá o desejo de vingança, oriundo da opressão, contaminando o povo. E a arma que eles tem ao seu alcance é o terror.
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Toda lei tem seus infratores, todo território suas margens, todo governo pressupõe desgoverno e desgovernados. As sociedades instintivamente têm sido sábias, levando em conta esses fatos da vida e ás vezes agindo em função deles. O que quer que seja estranho e desordenador é marginalizado como sendo monstruoso; no entanto, o teatro da vida também distribui papéis aos seus desajustados, avoados e malévolos, mesmo que apenas os de pessoas que a sociedade gosta de odiar. Como enfatizou mais que ninguém HANS MAYER, em seu livro OUTSIDERS (Marginais), a diferença inspira ameaça porque confere poder, e aqueles que a sociedade designa como marginais são muitas vezes mantidos à margem justamente porque, no momento certo, a presença deles será necessária no palco.
Roy Porter
A vitória do Hamas
A vitória do Hamas foi um tapa na cara dos EUA, pois demonstrou que o terrorismo não é um movimento de loucos homicidas, mas sim um meio de luta, uma forma de resistência contra a tirania e a opressão. Por isso a população Palestina aprovou o Hamas.
O terrorismo surge e se legitima como meio de luta quando há um grande desnível entre dominador e dominado, de um lado o exército mais poderoso do mundo e do outro operários e camponeses com martelos e foices.
O erro do Hamas é atacar civis desarmados e indefesos, cidadãos comuns, pois o terror deve ser direcionado aos combatentes e às forças do dominador, buscando desmoralizá-lo e destruí-lo - não só o sistema opressor, mas também àqueles que dão sustentação e legitimidade para este sistema-, uma vez que é direito natural do Homem lutar contra a servidão e o cativeiro e não se deixar morrer acorrentado aos grilhões do mal.
25/01/2006