Educação: realidade e utopia

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Leonildo Correa - Faculdade de Direito -- USP

Resumo:

A área educacional está impregnada de mitos e utopias. Alguns são essenciais para a coesão e paz social, enquanto outros se constituem em verdadeiras mentiras institucionalizadas. Neste trabalho se analisam as questões da educação e seu relacionamento com o trabalho, com a violência, com humanização do indivíduo e a ascensão social.  E mostra que há um excesso de idealização em considerar o resultado da educação, ou seja, o diploma como uma solução definitiva para todos os males, seja o desemprego, a violência, as ditaduras ou a pobreza. A educação é essencial para a coesão e paz social e tudo o mais depende exclusivamente do educando, de sua inteligência e versatilidade.

 Palavras-chave: Educação, conhecimento, Utopia, trabalho, violência.

1. Introdução

O conhecimento humano é vasto e dogmático, dialético. O seu instrumento de transmissão é a educação, que o dissemina pela sociedade, perpetuando-o entre as novas gerações, que se incumbem de passá-lo adiante. Contudo, a educação pode moldar ou desvirtuar o conhecimento durante a sua transmissão, direcionando-o de acordo com os seus interesses. Isso porque ele, o conhecimento, é manejado  por atores, sejam pessoas ou sistemas (Estado, política, economia), que possuem ideologias, crenças, valores e tendências. Cada um conta a História ressaltando aquilo que lhe interessa, cada um narra os fatos de acordo com a sua visão de mundo.

Portanto, é essencial dissociar o conhecimento (coisa a ser transmitida) da educação (meio de transmissão), assim como a educação (instrumento) dos educadores (manuseadores do instrumento), pois somente assim é possível verificar eficazmente o que é realidade e utopia no discurso social e nas propostas e questões educacionais.

Além disso, fazendo esta separação, pode-se entender fatos históricos, como por exemplo: os idealizadores e assassinos dos campos de concentração nazista não eram camponeses ignorantes e rudes, movidos por alguma máfia, mas pessoas educadas, amantes das artes, com títulos e diplomas universitários. De quem foi a culpa? Do conhecimento, da educação ou dos educadores ? E também fatos atuais: como uma universitária do curso de Direito (PucSP) pode planejar e auxiliar no assassinato dos próprios pais? A educação não pressupõe humanidade? Como pode existir tantas pessoas com nível superior desempregadas? Chegar aos últimos graus de instrução não pressupõe emprego? 

Questões como estas somente são respondidas quando se visualiza o que é realidade e o que é utopia no discurso educacional.

2. Definições pertinentes

O primeiro ato de um estudo consiste em definir as variáveis que fazem parte ou interferem no problema. A definição ou conceituação é fundamental, pois restringe o tema e valida os resultados no contexto em que foi investigado, possibilitando a outro pesquisador repetir, comprovar ou contestar os dados apresentados.

Neste artigo são relevantes as definições, a priori, de três termos: conhecimento, educação e utopia. Contudo, não é finalidade deste trabalho adentrar a uma avaliação e discussão filosófica profunda desses conceitos, mas tão-somente apresentar as idéias mais correntes e pragmáticas sobre o assunto, sem divagações desnecessárias. 

A. Conhecimento

O termo conhecimento engloba tanto as formas mais elementares quanto as mais complexas de entendimento da realidade (natureza) externa e interna ao indivíduo, colocadas à disposição da humanidade pela história dos povos e das idéias. O conceito é amplo o suficiente para acomodar não só o saber intuitivo, comumente usado em sua integralidade pelas pessoas sem instrução formal elementar, mas também o conhecimento técnico- científico, elaborado por postulados e teorias metodologicamente sistematizadas. Assim, engloba-se desde o saber popular, cujo poder de permanência e validação entre os indivíduos vem de sua importância na resolução satisfatória dos problemas colocados no dia-a-dia, até o pensamento científico difundido pelas escolas científicas. (PELIANO, 1996).

Mas além disso é importante considerar a divisão sugerida pela Conferência de Jomtien sobre a assimilação do conhecimento, que pode ser adquirido pela ação (saber fazer), pela utilização (saber usar) e pela interação (saber comunicar).

Saber fazer: o conhecimento é orientado por sua operacionalidade, ou seja, aprender a aprender. Aprender a produzir conhecimentos e não simplesmente aprender, no sentido da mera assimilação de conhecimentos já produzidos. Com isso o valor do conhecimento passa a ser definido por sua operacionalidade: mais importante do que saber, é saber fazer, saber buscar informações, saber manejar equipamentos, saber se adaptar a novas funções. É enfatizada a capacidade do indivíduo construir seu próprio processo de aprendizagem, desenvolvendo atitudes e habilidades como autonomia, auto-avaliação contínua, criatividade, responsabilidade compartilhada.

Saber usar: a medida do conhecimento é o uso que se pode fazer dele. Sua validade e importância são definidas por sua operacionalidade, sua instrumentalidade imediata. O conhecimento é funcional: saber para quê? O próprio processo de ensinar-aprender é transformado por essa necessidade de aplicação imediata: aprender fazendo, aprender em serviço, aprender praticando.

Saber comunicar: o conhecimento é cada vez mais apropriado coletivamente através da informática e das telecomunicações. Essa capacidade de distribuir e "acessar" os conhecimentos é uma exigência da produção e da vida social. O conhecimento se confunde com informação e conhecer vai ficando cada vez mais identificado com os procedimentos de documentação e acesso às informações.

Além disso é importante assinalar a relação entre o conhecimento, a educação e o trabalho. Entre estes elementos há uma forte interdependência que se manifesta da seguinte forma: o conhecimento é produzido no meio científico, que o transforma em tecnologia ou nova técnica; esta, por sua vez, é repassada para as instituições de educação que tem por objetivo ensinar os educandos a utilizarem tais invenções ou modelos, a fim de satisfazer as necessidades do mercado de trabalho ou consumo. Este fato se torna mais evidentes nas escolas profissionalizantes e nas universidades. Cada curso treina para uma profissão. Não se educa para a vida, mas sim para o trabalho.

O resultado é a odiosa especialização, que, por sua vez, leva a uma fragmentação do próprio conhecimento. De acordo com Umberto Eco (1993):

O equivalente  tecnológico da separação dos saberes foi a linha de montagem. Nesta, cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfação de ver o produto acabado, cada um é também liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso ocorre com freqüência, venenos sem que o soubesse. (...) Tudo se passa num ritmo acelerado, desconhecido dos séculos anteriores. Sem essa aceleração, o Muro de Berlim poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China. É bom que tudo se tenha resolvido no espaço de trinta anos, mas pagamos o preço dessa rapidez. Poderíamos destruir o planeta num dia. 

 

B. Educação

O conceito educação deriva de raízes romanas (D’AMBROSIO, 1998). Origina-se da palavra educatio, "a continuidade do modelo social e comunitário", e é igualmente educere - "fazer sair, tirar para fora" - na prática social e ducere - "guiar, conduzir, levar". O modelo generalizado em nossa sociedade é lamentavelmente mais "ducere", "uma reprodução do velho", do que "educere", uma aposta no novo, genuíno, diferenciado. Contudo,  esta análise permanecerá com o sentido atual da palavra.

A educação consiste numa ação exercida por um ser humano sobre outro ser humano - mais freqüentemente, por um adulto sobre uma criança – para permitir ao "educado" a aquisição de certos traços culturais (saberes ou maneiras de agir tanto técnicas como morais), que os costumes, o sentimento ou uma convicção refletida consideram desejáveis.

Oliver Reboul (1971) propõem o seguinte conceito para educação:

A educação é a acção consciente que permite a um ser humano desenvolver as suas aptidões físicas e intelectuais bem como os seus sentimentos sociais, estéticos e morais, com o objectivo de cumprir, tanto quanto possível, a sua missão como homem; é também o resultado desta acção. 

Portanto, para este autor, a educação é uma ação. Enquanto tal, é consciente, ou pelo menos dela se pode tomar consciência; é voluntária, ou pelo menos se pode percebê-la e assumi-la como tal. Contudo, existe uma educação espontânea que se exerce sobre o educando sem que ele perceba e até mesmo sem conhecimento do educador.

Foi neste sentido que o pedagogo alemão Ernst Krieck baseou a sua filosofia da educação: “Cada um, disse ele, educa cada um a cada instante.” Mas, porque é inconsciente, a educação espontânea permanece incontrolável e pode  deformar em vez de formar, ser apenas propaganda ou doutrinamento. Neste sentido é significativo que a teoria de Krieck tenha sido retomada pelo regime hitleriano como método de doutrinamento massivo e totalitário. (REBOUL, 1971).

C. Utopia

De acordo com a Encyclopaedia Britannica do Brasil

 A palavra "utopia", que em grego significa "em lugar nenhum", foi usada por Thomas More [latinizado, Morus] para designar a ilha imaginária descrita na obra De optimo reipublicae statu, deque nova insula Utopia (1516) - Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha Utopia. More faz severas críticas à sociedade inglesa e européia, ao mesmo tempo em que apresenta a ilha de Utopia como um lugar em que a sabedoria e a felicidade do povo decorrem de um sistema social, legal e político perfeito, guiado pela razão. A Utopia fez muito sucesso na época e tornou-se modelo de todas as concepções posteriores do gênero.

 

 Utopia, portanto, é toda proposta ideal de organização da sociedade em que, por meio de novas condições econômicas, políticas e sociais, se pretende alcançar um estado de satisfação geral. Nesse sentido, a utopia é a contrapartida para o futuro do mito de uma idade áurea, que teria existido em passado remoto. Comum a essas duas projeções é a oposição teórica às instituições sociais vigentes.

Neste artigo, porém, a palavra será utilizada no sentido de projeto irrealizável, quimera ou fantasia.

3. Educação e violência

Utopia: A educação inibe a violência, pois o indivíduo educado utiliza-se de argumentos. Não usa a força, mas sim  a inteligência.

Realidade: A educação racionaliza o indivíduo, mostrando-lhe as conseqüências de seus atos, porém não o impede de usar a força como solução de seus conflitos ou para alcançar seus intentos. 

Alguns exemplos ilustram este item. O primeiro se trata de uma tragédia que aconteceu no Brasil recentemente, na qual uma aluna universitária (Curso: Direito, Universidade: PucSP) auxilia no planejamento e assassinato de seus pais. Outro fato, não menos cruel, trata de um estudante da Faculdade de Medicina da USP que vai ao cinema, porém leva uma metralhadora na bolsa e, na hora do filme, começa a atirar para todos os lados. Resultado: dezenas de feridos e alguns mortos.

A educação é um dos mais importantes meios de coesão e paz social. Mantém as pessoas com olhares fixos em pontos utópicos pré-estabelecidos: idéias de status e ascensão social. Além disso, consiste em uma forma de mostrar e caucionar, nos educandos, as conseqüências e as punições previstas para aqueles que se valem de atos violentos, picaretagens, etc para subir na vida, enriquecer-se. Porém, este mecanismo educacional fracassa quando a realidade desmente os ensinamentos. Quando se aprende na escola que roubar é crime e se vê nas ruas tantos políticos, ladrões do erário público, podres de ricos e sem nenhuma punição.

Quando se verifica que roubando e conseguindo se esconder até a prescrição da punibilidade, ou indo para a prisão e cumprindo integralmente a pena, se ganha muito mais do que trabalhando de sol ou gozando de uma liberdade cheia de carências. Façam as contas: um tal juiz roubou R$ 150.000.000,00 dos cofres públicos e o Estado somente conseguiu recuperar R$ 50.000.000.00, portanto, o tal juiz conseguiu esconder R$ 100.000.000,00. Este juiz foi para a cadeia e vai cumprir integralmente sua pena. Logo, está quite com o Estado e com a sociedade. Vai sair da cadeia e terá R$ 100.000.000,00 para gastar por aí. Se tivesse trabalhado honestamente, ganhando um salário altíssimo, jamais teria conseguido acumular tanto quanto roubando. Em outras palavras, no Brasil o crime compensa e remunera.

Quanto à violência, são pertinentes as palavras de Costa (1993):

O termo violência não designa uma essência moral ou material com forma e conteúdo singularizados. Violência é a palavra que se emprega para denominar a série de atos intencionais que se caracterizam pelo uso da força, em situações de conflito, transgressão às leis que visam o bem comum e predomínio da crueldade sobre a solidariedade no convívio humano.

 

Ainda de acordo com este mesmo autor:

Em primeiro lugar, é preciso que a violência se torne corriqueira para que a lei deixe de ser concebida como o instrumento de escolha na aplicação da justiça. Sua proliferação indiscriminada mostra que as leis perderam o poder normativo e os meios legais de coerção, a força que deveriam ter. Nesse vácuo, indivíduos e grupos passam a arbitrar o que é justo ou injusto, segundo decisões privadas, dissociadas de princípios éticos válidos para todos. O crime é, assim, relativizado em seu valor de infração. Os criminosos agem com consciências felizes. Não se julgam fora da lei ou da moral, pois conduzem-se de acordo com o que estipulam ser o preceito correto. A imoralidade da cultura da violência consiste justamente na disseminação de sistemas morais particularizados e irredutíveis a ideais comuns, condição prévia para que qualquer atitude criminosa possa ser justificada e legítima.

Nessas circunstâncias a lógica da brutalidade nivela por baixo os sentimentos. Termos como compaixão, consideração, culpa ou responsabilidade diante do semelhante desaparecem do vocabulário. Surge uma barreira emocional que impede o convencimento racional do outro da nocividade da violência. Essa é uma das razões pelas quais se pode assassinar menores, desconsiderando o fato de que são crianças que estão sendo assassinadas.

 

 

Portanto, a disseminação da impunidade minou o sistema educacional e está eliminando as possibilidades de inibição da violência por meio da educação. Mas pior do que isto, se o buraco estrutural não for tapado logo, a tendência é que ocorra um aumento ainda maior dos índices de violência entre diplomados. Isso se vislumbra pelo crescimento excessivo do crime organizado e das quadrilhas especializadas que agem pela Internet, assim como o surgimento de novos crimes derivados do terrorismo, do sistema financeiro (fundos de pensão, bolsas, etc) e ligados a alta tecnologia (celular, computadores, transmissão de dados, etc).

4. Educação e humanidade

Utopia: A educação humaniza o homem e o transforma em um ser compreensivo, solidário e misericordioso, pois inibe seus instintos animais. Além disso, garante o predomínio do Estado de Direito, da democracia e da supremacia dos interesses da coletividade.

 Realidade:  A educação não é garantia de justiça e humanidade, menos ainda de democracia e Estado de Direito. Além disso, a educação dissemina conhecimentos de dominação do homem pelo homem, assim como as técnicas de extermínio em massa.

 Paul Johnson, em um dos seus artigos diz que:

Advogados são muitas vezes criticados, em especial por intelectuais, por terem mente estreita. Contudo, esta não é a pior faceta destes profissionais que são treinados a reconhecerem os caminhos da justiça e da paz. Eles foram determinantes, por exemplo, na moldagem da Itália de Mussolini de acordo com a fórmula do duce: "Tudo dentro do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado." E foram inestimáveis para Hitler ao conferirem consistência legal à sua filosofia racial, ou seja, na Alemanha nazista matar judeu não era crime, mas cometia crime quem não o fizesse, assim como o apartheid na África do Sul foi outro exemplo de sistema legal elaborado para garantir fins específicos, ou seja, os advogados unificaram as formas aleatórias de discriminação legal num completo sistema de leis.

E não adianta replicar que os objetivos desses sistemas eram maus em si mesmos. Afinal, o sistema legal soviético - tal como o chinês - era deliberadamente destinado a promover a igualdade. No entanto, a legislação soviética talvez tenha causado até mais injustiças do que o sistema nazista e, sob o código legal chinês, mais de 60 milhões de pessoas foram mortas e cerca de 20% estão hoje em campos de trabalhos forçados.

 

 

Mas, além dos advogados, como se explica o domínio dos ditadores sobre o resto da população? A explicação pode ser dada pelo que se denomina doutrinamento. Basta lembrar que o sistema educacional alemão, por exemplo, doutrinava e fazia uma lavagem cerebral, não só nos soldados, mas em todos os educandos, assim como na população em geral, por meio da propaganda. A maioria dos livros de história confirmam que a sustentação do regime nazista foi garantida pela propaganda doutrinadora, pela educação do regime.

Portanto, os regimes totalitários são exemplos claros de que é necessário algo mais do que a educação para humanizar o homem. E este algo mais tem que ser sistematizado e disseminado no meio educacional, uma vez que isto impedirá e inibirá o surgimento de movimentos autoritários e de destruição em massa de seres humanos.

5. Educação e trabalho

Utopia:        A educação qualifica o trabalhador e garante o emprego.

 Realidade: A formação completa (universitária) ou a educação é uma qualidade do trabalhador na competição por uma vaga de emprego, contudo quando todos os concorrentes tem formação completa,  a estrutura do mercado de seleção é modificada, é alterada; os salários caem e esta característica se torna irrelevante, passando a se exigir dos candidatos outros critérios e outras qualidades.

 Adam Smith foi um dos primeiros autores a analisar a relação entre a educação e o trabalho. Para ele a educação é necessária para a divisão do trabalho, sendo competência do Estado facilitar, encorajar e até mesmo impor a toda população o aprendizado mínimo às necessidades do capital.  Seu pressuposto básico era de que o povo instruído seria ordeiro, obediente a seus superiores.  Porém, o essencial não era instruir, racionalizar o indivíduo, mas racionalizar a vida econômica, a produção, ou seja, a única educação que interessava era para satisfazer o mercado, tanto com mão-de-obra qualificada, quanto com mercado consumidor requintado. (RIBEIRO, 1993)

 Mas o diploma é sinônimo de emprego ? Quantos doutores estão à margem do processo, via de regra, desempregados? A exemplos comparativos brutais, mesmos nos países de intenso desenvolvimento capitalista, onde um soldado ganha mais que um professor. Isso ilustra apenas o óbvio, que não é a escolarização que determina o valor do uso do saber e sim o mercado de trabalho. Destarte, torna-se evidente que sem distribuição de renda não há ascensão e nem desenvolvimento social pela escolarização.

A escola da sociedade moderna não tem em vista o indivíduo, mas está a serviço do capital. Mais uma vez, cai na utopia pedagógica os reformadores que buscam solucionar os problemas sociais na escolarização de todos. Por isso, geralmente, a técnica, dentro das escolas, predomina sobre o pensar.

Teixeira (2003) afirma que:

A ideologia econômica vigente insiste em dizer que só fica rico quem trabalha. Todavia sabemos que só o lucro faz as pessoas acumularem riquezas, não o trabalho. Só fica rico, desconsiderando os casos imorais sob a ótica da própria ideologia (corrupção, roubo, extorsão, etc.), quem acumular a mais valia, nas relações comerciais, ou quem escraviza a mão de obra, retendo o suor alheio, na indústria. A ideologia política reza que o comunismo é perverso, mas a maioria das pessoas não enxerga que há comunismo nos preços: todos pagam no Mercado, independente de sua condição social, os mesmos preços para as mesmas mercadorias. No entanto, o mesmo Mercado não remunera todos da mesma forma, uns ganham mais, outros quase nada. Por que há comunismo só na hora de pagar, e não na hora de receber pela jornada de trabalho?

 

  Em outras palavras, o mercado de trabalho evoluiu com o avança tecnológico e necessita de uma mão-de-obra qualificada, que saiba ler inglês, para decifrar os manuais de máquinas importadas,  e mexer em equipamentos de última geração. Por isso o capital disseminou o discurso de escolarização mínima e obrigatória.

Ribeiro (1993) cita um exemplo histórico embasador deste tópico:

Pode-se explicar essa correlação com um exemplo que o historiador Christopher Hill desentranhou de uma antiga e bem estudada revolução ocidental — a inglesa, de 1640. Durou pouco, mas acabou influindo com séculos de antecedência na formação do futuro Império Britânico, aquele em que o sol nunca se punha, através de duas providências quase sempre pouco consideradas: a universalização do ensino e a secularização do conhecimento científico.

Os revolucionários ingleses pregaram, o que era inédito, a educação para todos até os 10 anos de idade, inclusive as mulheres. Para os alunos mais dotados, abria-se o acesso aos estudos superiores. Para ensinar, preferiam o vernáculo ao latim. A ciência eles libertaram da clausura livresca, popularizando a “mecânica” — isto é, a matemática e a física. Não foi por coincidência que Isaac Newton viveu, produziu sua obra e foi por ela amplamente celebrado naquele tempo. O fato é que as ciências naturais — e mais tarde as ciências sociais — entraram então para sempre nas universidades inglesas.

 

A educação esteve, portanto, nos alicerces das nações modernas desde as primeiras revoluções anti-feudais do século XVI. Na Inglaterra, a energia que lançaria na História seu imenso império — além da Revolução Industrial — veio desses impulsos remotos, que exorcizaram a fatalidade como explicação para os infortúnios da vida, fizeram o domínio da natureza parecer possível e desejável, transformaram a ampla cidadania numa fonte de vitalidade nacional.

Nisso, não foi exceção. Foi a regra histórica. Um século e meio depois dos ingleses, as revoluções francesa e prussiana retomariam a universalização da educação como chave do igualitarismo e também para multiplicar cidadãos formados em ofícios mais práticos do que a cultura de nobres letrados. Também essas revoluções, não por acaso, produziram impérios políticos e econômicos.

 Mas um exemplo atual vem de uma pesquisa realizada no Distrito Federal há pouco tempo (Peliano, 1996), onde ficou constatado que a maioria esmagadora dos mecânicos, habilitados nos consertos dos carros convencionais, tinha dificuldade em lidar com a nova tecnologia de injeção eletrônica de combustível porque não "entendia" o que era prescrito nos manuais técnicos, que acompanhavam os veículos, tanto com relação à peça, quanto ao equipamento de teste e regulagem do motor. Tampouco davam conta, os mecânicos, de consertá-los por "tentativa e erro" uma vez que desconheciam o princípio eletrônico que veio substituir o princípio mecânico.

Percebe-se, portanto, que a educação responde às necessidades do mercado de trabalho e da economia. Não se forma o homem como ser humano, mas o trabalhador como mão-de-obra.

E, para finalizar, a palavras de Gilberto Dupas (1997):

Em teoria, se um Estado nacional dobrar repentinamente o número de seus engenheiros, médicos e advogados, não garantirá que haja demanda para eles ou que o país cresça mais. O mais provável é que os salários desses profissionais caiam abruptamente e muitos deles acabem trabalhando em funções menos qualificadas ou fiquem desempregados. Para agravar esta questão, a recente onda de automação exige crescente especialização dos que permanecem empregados, mas gera um número decrescente de empregos formais qualificados por investimento direto adicional na produção de bens e serviços.

Não há dúvida de que, quanto maior a base de indivíduos qualificados existentes num país, maior a probabilidade de se criar uma elite capaz de se envolver em processos tecnológicos em geral. A garantia de empregá-los, porém, estará subordinada a outras políticas macro-econômicas que induzam ao crescimento econômico.  

 

6. Educação e ascensão social

Utopia: A educação é um caminho para a ascensão social. 

Realidade: A educação ocasiona melhoria de qualidade de vida, mas não é um meio de ascensão social ou mudança de classe.

A comprovação deste argumento deriva das provas apresentadas nos itens anteriores, ou seja, se a educação não garante nem mesmo o emprego do indivíduo, o que dirá o seu enriquecimento ou mudança de classe social.  Certamente, existem casos isolados que devem ser avaliados e considerados a partir da inteligência do indivíduo e não dos seus diplomas. Mas é importante ter em mente que: se a situação com um diploma já é difícil, pior será se não tiver nenhum.

7. Conclusão

Os anos 90, foram marcados pela reprodução do pensamento neoliberal, antitético ao pensamento utópico. Mas sem utopia não há história e tudo vira banalidades, nas palavras de Habermas (1987, p.111): “quando secam os oásis utópicos estende-se um deserto de banalidades e perplexidade.”

Portanto, a utopia é essencial porque alimenta o Homem em sua busca do ideal, do inatingível. Contudo, na área educacional ela deve ser desmascarada e reduzida para se evitar as frustrações futuras e permitir a criação de um modelo coerente com a realidade.

Partir do pressuposto de que a educação é a solução de todos os males não é o caminho, pois se o problema é a falta de diplomas, basta distribuí-los para a população. Contudo, fazendo isso, se percebe que não é a educação a solução, mas sim o conhecimento. Logo, de nada vale o diploma se o ensino não tem qualidade, se o indivíduo não aprende a pensar e a criar por si mesmo.

Enfim, existe um conjunto de fenômenos interligados à educação que a sustentam e garantem a formação completa, humana e a evolução do indivíduo e sua transformação em cidadão consciente. Focalizar apenas a educação é abrir brechas na estrutura educacional, deformando o conhecimento e permitindo o surgimento e a formação de indivíduos indesejáveis socialmente, seja no âmbito da criminalidade ou na ascendência de governantes populistas e ditadores.

A educação de qualidade, que mostra a realidade e ensina o educando a superá-la é o melhor caminho para a formação de um cidadão completo e para a sustentação de uma sociedade justa e igualitária, fundada no Estado de Direito e na democracia. 

Referência bibliográfica

COSTA, Jurandir Freire. (1993). O Medo Social: IN Veja 25 Anos - Reflexões para o Futuro. São Paulo: Editora Abril, 1993, pp. 83-89.

 D’AMBRÓSIO, UBIRATAN (1998), Educação: nas lições do passado, as perspectivas para o futuro, Estudos Leopoldinenses, Vale do Rio dos Sinos, v. 2, nº 2.

 ECO, Umberto. (1993). Rápida Utopia: IN Veja 25 Anos - Reflexões para o Futuro. São Paulo: Editora Abril, pp. 108-115.

 HABERMAS. (1987) Nova intransparência. In: Novos Estudos. CEBRAP, N° 18, SET.

PELIANO, JOSÉ CARLOS PEREIRA. (1998), Reestruturação produtiva e qualificação para o trabalho. Educação & Tecnologia, Curitiba, ano 2, nº 3, agosto.

__________, colaborador, (1996), Reflexões sobre o conhecimento e as relações entre trabalho, educação, ciência e tecnologia, Fundação Educacional do Distrito Federal, Documento nº 01, Brasília, (mimeo).

REBOUL, Olivier. (1971). O que é educar ?, Paris: Puf, pp. 11-32. Tradução para o português: Olga Pombo. 2000.

 RIBEIRO, Sérgio Costa. (1993). Construir o saber: IN Veja 25 Anos - Reflexões para o Futuro. São Paulo: Editora Abril, pp. 83-89.