O vagão humano

Hans Magnus Enzensberger  -- Veja: Reflexões para o futuro -- 1993

A Grande Migração ainda está por vir. Segundo o ensaísta alemão, autor de Política e Crime, estamos vendo apenas a ponta mais saliente da grave questão européia do pós-comunismo. A xenofobia é um fenômeno universal. Os bárbaros somos nós.

Dois passageiros em uma cabine de trem. Apossaram-se das mesinhas, cabides e bagageiros e se instalaram à vontade. Jornais, casacos e bolsas ocupam os assentos vazios. A porta se abre e entram dois outros viajantes. Não são vistos com bons olhos. Os dois primeiros passageiros, mesmo que não se conheçam, comportam-se com uma solidariedade notável. Há uma nítida relutância em desocuparem os assentos vazios e deixarem que os recém-chegados também se acomodem.

A cabine do trem tornou-se território seu, para disporem dele a seu bel-prazer, e cada novo passageiro que entra é considerado um intruso. Esse comportamento não pode ser justificado racionalmente - está arraigado mais a fundo.

Na prática, a situação nunca chega ao ponto de um conflito declarado. Isso ocorre porque os passageiros estão sujeitos a um sistema de regras; seu instinto territorial é coibido pelo código institucional da ferrovia, e ainda por outras normas tácitas de comportamento, como as da cortesia. Cruzam-se os olhares, murmuram-se as desculpas de praxe, e os novos viajantes são tolerados. Os que chegaram primeiro acabam se acostumando com eles. Porém, um estigma, ainda que menos acentuado com o passar do tempo, não mais os abandona.

Esse modelo inofensivo não deixa de ter características absurdas. O próprio vagão do trem é um domicílio transitório, um lugar que serve apenas para mudar de lugar. O passageiro é a negação da pessoa sedentária. Trocou um território real por um virtual. Apesar disso, ele defende sua moradia temporária com um carrancudo ressentimento.

Toda migração, independentemente da causa, natureza ou escala, gera conflitos. O interesse próprio e a xenofobia são constantes antropológicas, mais antigas do que todas as sociedades conhecidas. Para evitar banhos de sangue e possibilitar ainda um mínimo intercâmbio entre diferentes clãs, tribos e grupos étnicos, as sociedades do passado inventaram os rituais de hospitalidade. Mas tais providências não revogam o status do estrangeiro. Muito pelo contrário, elas o fixam. O hóspede é sagrado, mas não deve ficar.

Dois novos passageiros abrem a porta da cabine. A partir desse momento, muda o status dos viajantes que o precederam. Um momento antes, eram eles os intrusos; agora, são nativos. Fazem parte do clã dos ocupantes da cabine, e exigem todos os privilégios a que têm direito.

Os clãs e os grupos tribais existem desde que a Terra passou a ser habitada por seres humanos; as nações existem há cerca de duzentos anos apenas. Não é difícil perceber a diferença. Os grupos étnicos são gerados quase espontaneamente, "por sua livre vontade"; as nações são uma criação consciente, com freqüência constituindo entidades muito artificiais, desprovidas de coerência na ausência de uma ideologia específica. Esse alicerce ideológico, juntamente com seus rituais e emblemas (bandeiras, hinos), surgiu no século XIX. Da Europa e da América do Norte, espalhou-se pelo mundo todo.

O país que pretende ser bem-sucedido como nação necessita de uma autoconsciência bem codificada, de um sistema próprio de instituições (exército, alfândega e fisco, corpo diplomático) e numerosos recursos legais para demarcar suas fronteiras (soberania, cidadania, passaportes). Raramente ele é é conduzido sem lendas históricas; se necessário, forjam-se provas de um passado glorioso, concebem-se veneráveis tradições. Em geral, quanto mais artificial a gênese de uma nação, mais precário e histérico é o sentimento nacional. Isso se aplica às "nações retardatárias" - os novos Estados originados do sistema colonial - e também às uniões forçadas, como a ex-União Soviética e a Iugoslávia, que tendem à desintegração e à guerra civil.

É claro que nenhuma nação apresenta uma população étnica absolutamente homogênea. Esse fato encerra um conflito fundamental com o sentimento nacional que tomou forma na maioria dos Estados. Em conseqüência, os principais grupos nacionais têm dificuldade para tolerar a existência de minorias e cada nova onda de imigrantes afigura-se como um problema político. As exceções mais importantes a esse padrão encontram-se nos Estados modernos que devem sua existência à migração em grande escala, como os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália. Seu mito essencial é o tábula rasa (muito embora isso dependa do extermínio da população indígena).

As migrações contemporâneas diferem dos movimentos de pessoas ocorridos no passado em mais de um aspecto. Primeiro, a mobilidade aumentou imensamente nos dois últimos séculos. O mercado mundial desenvolveu-se, requerendo a mobilização global e impondo-a à força quando necessário, como foi o caso da abertura do Japão e da China no século XIX. O capital arrasa as barreiras nacionais. Não faz caso de impulsos patrióticos e racistas, mas pode empregá-los tacitamente se necessário.

Em geral, porém, a tendência é a livre movimentação de capital atrair mão-de-obra, sem consideração por raça ou nacionalidade. Com a globalização do mercado mundial (que só recentemente se completou), os novos movimentos migratórios provavelmente tomarão o lugar das guerras coloniais e expedições de conquista organizadas por Estados. Os seres humanos agem como se estivessem sujeitos a alguma incompreensível compulsão. Seus embargues são como as arribações das aves, que só um cínico chamaria de voluntárias.

Ninguém emigra sem a promessa de algo melhor. No passado, lendas e boatos compunham a mídia da esperança. A Terra Prometida, a lendária Atlântida, El Dorado ou o Novo Mundo forneceram as histórias mágicas que motivaram muitos a partir. Hoje o sonho chega através das imagens da mídia global até o mais remoto povoado do mundo em desenvolvimento. Essas imagens contêm menos substância, menos realidade do que mesmo a mais fantástica das lendas de outrora; no entanto, seus efeitos são incomparavelmente mais poderosos.

A publicidade, que nos países ricos de onde provém é facilmente percebida como um sinal vazio, sem referente real, tem no Segundo e Terceiro Mundo o peso de uma descrição confiável de um modo de vida possível. Em grande medida, ela determina o horizonte de expectativas que impulsiona a migração.

Hoje em dia, estima-se que vivam na Europa Ocidental mais de 20 milhões de imigrantes. O fluxo de refugiados na África e na Ásia alcança escala semelhante. São números altíssimos. Entretanto, quando se leva em conta que, entre 1810 e 1921, 34 milhões de pessoas, a maioria da Europa, emigraram só para os Estados Unidos, fica impossível argumentar que os números de hoje não têm precedentes.

Na verdade, até se poderia afirmar que a migração moderna tem sido, até agora, bastante limitada, especialmente se medida em função do crescimento absoluto da população mundial (as previsões das Nações Unidas são de um aumento de quase 1 bilhão de pessoas entre 1990 e 2000). Isso induz à conclusão de que apenas uma diminuta fração dos migrantes em potencial já se pôs em movimento: a verdadeira migração de povos ainda está por vir.

Os meios de comunicação ecoam essa constatação com fatalismo, ilustrando-a com um formidável cataclismo. Um estranho prazer do medo emerge dos quadros apocalípticos que projetam. Todos os fenômenos de crise de hoje - a condição instável da economia mundial, os enormes perigos tecnológicos, a desintegração do império soviético, a ameaça ecológica - dão vazão a cenários dessa espécie. É possível que o pânico por antecipação até mesmo sirva para imunizar - uma espécie de vacina psíquica. Seja como for, ele não conduz à solução e sim, na melhor das hipóteses, a políticas que oscilam entre tímidas medidas reparatórias e obstáculos ao raciocínio e à ação.

Muitos na Europa Ocidental crêem que suas vidas estão ameaçadas, comparam sua situação com a dos sobreviventes de um naufrágio. De repente, os que têm um teto para se abrigar imaginam que são refugiados clandestinos, emigrantes viajando no porão, albaneses em um navio fantasma abarrotado. Os sofrimentos no mar, alucinantes em tais casos, presumivelmente visam justificar um comportamento apenas concebível em situações extremas. E daí para chutar as mãos dos que tentam subir também no barco, a distância é mínima.

Quando os seres humanos ainda podem ser reconhecidos - como no quadro de Géricault "A Jangada da Medusa", em que podemos distinguir dezoito rostos e o destino de cada um - resta um certo alento, mas as estatísticas contemporâneas, quer se refiram a flagelados da fome, quer a desempregados ou refugiados, expressam tudo em milhões.

São números que paralisam a imaginação; as organizações de ajuda e os responsáveis por suas campanhas sabem que a numerologia é incompreensível, e é por isso que sempre mostram uma única criança, com aqueles olhos enormes e comoventes, para tornar a catástrofe comensurável com nossa compaixão. O terror dos grandes números não tem olhos. A empatia se esvai perante uma demanda tão excessiva.

É claro que em todas as épocas aconteceram grandes massacres e pobreza endêmica. Os inimigos eram inimigos, e os pobres eram pobres; contudo, apenas desde quando a História se tornou História mundial é que povos inteiros se viram condenados à superfluidade. Os juízes que assinam essa sentença respondem pelos nomes de "colonialismo", "industrialização", "solução final", "Versalhes" ou "Yalta", e seus ditames são pronunciados abertamente e postos em prática de modo sistemático, para que ninguém tenha dúvidas sobre a sorte que lhe está sendo destinada: emigração, expulsão, genocídio.

"Os alemães (ou franceses, suecos, italianos) estão-se extinguindo", ouve-se. Exibem-se projeções de longo prazo das atuais estatísticas populacionais, fazendo delas a precária base dessas divisas. Muito embora previsões desse tipo se tenham revelado falsas no passado, antevêem-se conseqüências terríveis: proporção cada vez maior de idosos na população, decadência, decréscimo populacional, tudo isso acompanhado de preocupadas digressões sobre o crescimento econômico, as receitas tributárias e o sistema de previdência social.

A idéia de que pessoas demais e pessoas de menos poderiam coexistir em um mesmo território gera o pânico - uma angústia para a qual eu gostaria de sugerir o termo bulimia demográfica.

Na Europa, durante muito tempo foi maior a preocupação com as conseqüências da emigração do que com a imigração. Esse debate remonta ao século XVIII. O conceito de população como uma riqueza deriva do mercantilismo. Naquela época, a emigração era vista como uma hemorragia, procurando-se limitá-la e mesmo proibi-la. Em muitos países, emigrar ou possibilitar a emigração de alguém era um ato que acarretava severas punições, e essa prática até bem recentemente ainda existia nos Estados comunistas.

Luis XIV mandava vigiar atentamente suas fronteiras a fim de manter dentro delas os seus súditos, e na Inglaterra os artesãos qualificados foram proibidos de emigrar até meados do século XIX. Na Alemanha, até 1817 vigorou um imposto sobre emigração cobrado sobre os bens dos que partiam, e os nazistas serviram-se desse meio de confisco na época em que não desejavam ainda assassinar os judeus, mas apenas expulsá-los.

A Irlanda é o exemplo clássico de país de emigração. A brutal exploração pelos ingleses acarretou uma desastrosa carestia na década de 1840, da qual o país ainda hoje não se recuperou. Em 1843, a Irlanda tinha uma população de 8,5 milhões de pessoas; em 1961, o número de seus habitantes havia despencado para menos de 3 milhões. No período de 1851 a 1901, emigraram em média 72% de todos os irlandeses. a Irlanda continua a ser um dos países mais pobres da Europa Ocidental e pode-se perder um tempo enorme debatendo se foi a emigração a culpada por essa pobreza ou se, ao contrário, ela melhorou a situação dos habitantes.

Ainda hoje o êxodo de cérebros, uma espécie de fuga demográfica de capital, tem efeitos devastadores em países como a China, a Índia e a ex-União Soviética. Esse fenômeno também assumiu grande importância no colapso da Alemanha Oriental. E o número de médicos provenientes do Terceiro Mundo que trabalham na Europa Ocidental ainda é maior do que o de profissionais de saúde enviados pela Comunidade Européia à Ásia, África e América Latina - onde há escassez de médicos treinados.

Sabidamente os imigrantes mais bem qualificados encontram menos barreiras. O astrofísico indiano, o famoso arquiteto chinês, o negro africano ganhador do Prêmio Nobel são todos bem-vindos a qualquer lugar do mundo. Afinal, os ricos jamais são mencionados nesse contexto; ninguém questiona sua liberdade de movimento. Para um empresário de Hong Kong, adquirir um passaporte britânico não constitui um problema. A cidadania suiça també é, para imigrantes de qualquer origem, apenas uma questão de preço. Ninguém jamais fez objeção à cor da pele do sultão de Brunei. Os estrangeiros são mais estrangeiros quando são pobres.

A Alemanha é um país que deve sua população atual a gigantescos movimentos migratórios. Desde os tempos mais remotos tem havido uma troca constante de grupos populacionais, pelas mais diversas razões. Em virtude de sua posição geográfica, os alemães, assim como os austríacos, constituem um povo especialmente diversificado. O fato de as ideologias de sangue e raça ganharem credibilidade justamente ali pode ser visto como uma espécie de compensação para amparar uma identidade nacional particularmente frágil.

O ariano nunca passou de uma construção risível. (Nesse aspecto, o racismo alemão difere do japonês, pois este último apela para o grau relativamente elevado de homogeneidade étnica da população da ilha.)

A II Guerra Mundial mobilizou os alemães em mais de um aspecto. Não só a maioria da população do sexo masculino deslocou-se em massa, atingindo até a Noruega e o Cáucaso (e, como prisioneiros de guerra, a Sibéria), mas também a Alemanha seqüestrou em toda a Europa mais de 10 milhões de trabalhadores, um terço deles do sexo feminino, de modo que 30% de todos os trabalhos, e na indústria bélica mais da metade, passaram a ser executados por estrangeiros. Comparadas a essas movimentações catastróficas, todas as turbulências atuais parecem inofensivas.

Outras migrações em grande escala começaram com o fim da guerra. Estima-se que, entre 1945 e 1950, 12 milhões de refugiados dirigiram-se para as quatro zonas ocupadas; houve ainda mais de 3 milhões de "reinstalações" de pessoas da Europa Oriental e da União Soviética que são consideradas de origem alemã.

Entre 1944 e 1989, 4,4 milhões vindos da Alemanha Oriental foram para o lado oeste. E, a partir de meados da década de 50, teve início o recrutamento sistemático de migrantes para trabalhar - os Gastarbeiter -, sendo essa a principal razão de haver mais de 5 milhões de estrangeiros com residência legal na Alemanha. (A proporção de estrangeiros ainda é muito inferior à registrada pelo Império Germânico antes da I Guerra Mundial). Até a década de 80, o direito de asilo foi um fator de ínfima importância nesses movimentos populacionais.

É de espantar que uma população que vivenciou experiências como essas possa ser vítima da ilusão de que a migração de agora constitui um fenômeno novo. É como se os alemães estivessem com a mesma amnésia que imperou no exemplo da cabine do trem. Eles são, na verdade, os recém-chegados que, tendo garantido seu próprio assento, insistem em desfrutar os direitos daqueles que sempre estiveram lá.

Xenofobia - um problema especificamente alemão ? Isso seria bom demais para ser verdade. A solução estaria evidente: isolar a República Federal da Alemanha, e então o resto do mundo poderia respirar aliviado. Facilmente se poderia mencionar alguns países vizinhos onde as qualificações para a imigração são bem mais rigorosas do que na Alemanha. Tais comparações, porém, não levam a nada. A xenofobia é um fenômeno universal, e em lugar nenhum ela é tratada com racionalidade. Mas então o que há de tão especial com a Alemanha ?

O histórico sentimento de culpa dos alemães, não importa o quanto seja fundamentado, não fornece uma explicação suficiente. As causas são mais antigas. Seus alicerces repousam sobre a precária autoconsciência da nação. Não se pode negar que os alemães são incapazes de tolerar-se uns aos outros, ou até mesmo a si próprios: basta observar as emoções despertadas pela unificação alemã.

Essa auto-aversão evidencia-se não apenas na hostilidade em relação ao estrangeiro mas também na manifestação contrária. EM nenhum lugar se valoriza mais a retórica universalista que na Alemanha. A defesa do imigrante, quando feita, adquire o tom moralista de quem se julga excepcionalmente virtuoso: "Estrangeiros, não nos deixem sozinhos com os alemães !" Os imigrantes passam a ser idealizados de um modo que lembra o filossemitismo. O ódio a si mesmo é projetado nos outros - notavelmente na insidiosa afirmativa "sou estrangeiro" adotada por numerosas celebridades alemãs.

Percebe-se uma curiosa aliança entre os remanescentes da esquerda e o clero (aliança semelhante também pode ser observada na Escandinávia, o que indica que essa postura tem alguma relação com a cultura política do protestantismo). Embora pregar o Sermão da Montanha seja dever da Igreja, ele não pode ser impingido como solução política: quem conclamar seus compatriotas a oferecer abrigo a todos os desgraçados e miseráveis do planeta - muitas vezes com alusões a crimes coletivos que vão da conquista da América ao Holocausto -, sem consideração pelas conseqüências econômicas ou pela viabilidade de tal projeto, perde toda a credibilidade política. Torna-se incapaz de agir. Conflitos sociais profundamente arraigados não podem ser erradicados com sermões.

Quantos imigrantes um país é capaz de acolher ? Há variáveis demais para responder a essa questão, porém, a economia nos fornece as melhores diretrizes. Os conflitos inevitáveis que emergem com a migração em grande escala intensificam-se quando existe desemprego crônico nos países de destino. Em épocas de pleno emprego, as quais provavelmente nunca mais retornarão, milhões de trabalhadores migrantes foram recrutados. Dez milhões de imigrantes foram do México para os EUA, 3 milhões da África do Norte para a França, 5 milhões para a República Federal da Alemanha, entre estes quase 2 milhões de turcos.

A migração não foi apenas tolerada, mas enfaticamente bem-vinda. Essa atitude mudou apenas quando aumentou o desemprego. Desde então, as oportunidades dos imigrantes no mercado de trabalho minguaram. Muitos arriscam-se a uma carreira de eternos dependentes da previdência social. Em face de barreiras burocráticas praticamente intransponíveis, outros têm de viver na ilegalidade; as únicas perspectivas acessíveis para eles são a economia subterrânea e a criminalidade - o preconceito torna-se uma profecia que se realiza só porque foi feita.

Hoje em dia não faz sentido tentar mostrar que os recém-chegados são, além de usuários, contribuintes do Estado do bem-estar social, ou que a imigração pode ter um efeito benéfico sobre a estrutura etária da população - não faz sentido porque esse argumento requer um mercado de trabalho capaz de absorver os imigrantes. Seja como for, muitos demógrafos acreditam que a imigração teria de alcançar proporções gigantescas para restaurar a pirâmide etária tradicional. Dependendo do modelo usado, estima-se que para ser atingido esse objetivo seriam necessários de 4 a 10 milhões de imigrantes mais jovens por ano nos Estados Unidos e pelo menos 1 milhão na Alemanha - e esta última não teria condições de lidar com tamanho afluxo, nem no aspecto político nem no econômico.

As coisas podem piorar. Que grupo estaria agora disposto ou apto a ser integrado a outros ? A sociedade multicultural continua sendo um slogan que confunde, pois as dificuldades que ela gera e não consegue esclarecer permanecem um tabu. Se ninguém souber ou quiser saber o que significa cultura - a definição mais precisa disponível parece ser "Tudo o que os seres humanos fazem e não fazem" -, o debate não levará a lugar algum.

Nessas discussões não são levadas em consideração as experiências proporcionadas pelas migrações em grande escala do passado. Os oponentes da imigração negam os exemplos de sucesso que podem ser encontrados em qualquer parte, desde os suecos na Finlândia até os huguenotes, dos poloneses na região industrial alemã aos refugiados húngaros de 1956. Seus defensores não querem ouvir falar dos fracassos: as guerras civis no Líbano, Iugoslávia e Cáucaso ou os conflitos nas cidades americanas.

A idéia de um Estado multinacional raramente se revelou durável. Talvez seja querer demais pedir que alguém se lembre da desintegração do Império Otomano ou da Monarquia dos Habsburgo. Mas no que tange à União Soviética é dispensável todo conhecimento de História - basta um televisor. Ao longo de décadas, incutiu-se a idéia de uma "sociedade multicultural" soviética, com senso de identidade e objetivos comuns. O resultado foi uma implosão de conseqüências incalculáveis.

Também nos países de imigração clássicos pode-se observar o perigo. Por longo tempo os recém-chegados mostraram-se ávidos por adaptar-se, mesmo sendo duvidoso que o famoso "cadinho cultural" tenha alguma vez realmente existido. A maioria dos imigrantes foi bem capaz de distinguir entre integração e assimilação. Eles aceitaram as normas escritas e tácitas da sociedade que os acolheu, porém durante muito tempo aferraram-se à sua tradição cultural - e com freqüência também à sua língua e costumes religiosos.

Hoje em dia é impossível contar com essa atitude entre as antigas minorias ou os novos imigrantes. A pobreza e a discriminação, especialmente nos Estados Unidos mas também na Grã-Bretanha e na França, induziram cada vez mais grupos na população a insistir em sua "identidade". Não está de modo algum claro o que querem dizer com tal insistência. Porta-vozes ativistas fazem reivindicações de separatismo. Por vezes, as palavras de ordem recaem no legado do tribalismo: uma "nação" negra, uma "nação" islâmica, e na Inglaterra existe um "Parlamento Muçulmano". Muitos negros nos Estados acreditam que o narcotráfico seja uma estratégia premeditada dos brancos para exterminar a minoria negra.

Mesmo que a disposição dos imigrantes para a integração esteja diminuindo, não são eles os provocadores; os conflitos são originados pelos nativos. Se ao menos os "nativos" fossem apenas os skinheads ou os neonazistas ! Porém as gangues representam unicamente a parcela violenta que se arrogou o posto de vanguarda da xenofobia. A meta da integração ainda não foi aceita por uma boa parte da população européia. A maioria não está disposta a vê-la realizar-se, e de fato no presente nem sequer está apta para se integrar.

É possível identificar uma variação filantrópica dessa idéia na concepção de uma "política de migração preventiva", que se destina a eliminar as causas da emigração. Para que ela tivesse êxito, seria necessário preencher o hiato entre países pobres e ricos, ou pelo menos reduzi-lo consideravelmente. Essa tarefa está além da capacidade econômica das nações industrializadas, mesmo se deixarmos de lado as questões de vontade política e os limites ecológicos ao crescimento.

Que toda pessoa possa dizer em voz alta o que pensa do governo, do país ou de Deus nas alturas sem ser torturada ou ameaçada de morte; que as desavenças sejam dirimidas no tribunal e não com uma rixa entre grupos; que as mulheres possam movimentar-se livremente e não sejam obrigadas a vender-se ou ser circuncidadas; que toda pessoa possa atravessar a rua sem ser metralhada no tiroteio de uma soldadesca turbulenta - isso é indispensável.

Em todas as partes do mundo a maioria deseja tais condições, e está pronta para defendê-las onde elas prevaleçam. Sem exagerar, pode-se afirmar que essas constituem as condições mínimas da civilização.

Na história da humanidade, esse mínimo foi alcançado apenas excepcionalmente e em caráter temporário. Todo aquele que deseja preservá-lo de ameaças externas defronta com um dilema: quanto mais ferozmente a civilização se defende contra uma ameaça externa e ergue barreiras à sua volta, menos, no final, lhe sobra para defender. Porém, quanto aos bárbaros, não precisamos esperá-los nos portões. Eles sempre já estão entre nós.