Crise na Maçonaria

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Denúncias de desvio de dinheiro e brigas na Justiça expõem a confusão da sociedade secreta no Brasil

Edna Dantas

A maçonaria brasileira vive dias difíceis. Historicamente cercada de mistérios e segredos, a organização — fundada no século XVIII na Inglaterra, embora sua origem remonte à Idade Média — está em guerra franca e aberta. A briga entre irmãos, como eles se tratam, foi parar na Justiça no início de 2000. Em quase três anos, cerca de 15 medidas judiciais envolvendo a instituição e seu braço jovem, a Ordem De Molay, foram impetradas no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Estado-sede do Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito, a principal corrente brasileira, que abriga 80% dos maçons. A ação mais recente, interposta no início de dezembro pelo empresário Carlos Henrique Silva Monjardim da Fonseca, levanta suspeitas de desvio de dinheiro contra um grão-mestre, o representante comercial aposentado Alberto Mansur, de 80 anos.

"A maçonaria vive uma crise sem precedentes", diz o historiador maçom José Castellani. "Ela perdeu grande parte de sua influência política por falta de representatividade de seus dirigentes", explica. "Depois disso, começou a decadência, que continua até hoje." O principal confronto político começou no Rio, com a briga entre duas lideranças, uma nacional e outra estadual.

De um lado, estava o advogado Luiz Fernando Rodrigues Torres, cujo título, soberano grande comendador do Supremo Conselho do Rito Escocês, o torna uma das principais lideranças maçônicas do país. Do outro, o influente desembargador Luiz Zveiter, grão-mestre da Grande Loja Maçônica do Rio. Evasivo, econômico nos detalhes, Zveiter diz que Torres feriu o princípio da soberania ao tentar ingerir-se em assuntos relacionados à Grande Loja. Por isso, acredita, ele e seu auxiliar mais próximo, o empresário Jorge Luiz de Andrade Lins, foram suspensos e eliminados da entidade liderada pelo desembargador. Começava aí a guerra.

A essa altura, a disputa, travada dentro dos templos maçons, ganhou o mundo profano — como eles chamam os assuntos que não dizem respeito à organização. Uma liminar da Justiça determinou a intervenção no Supremo Conselho e a condução de Alberto Mansur ao cargo ocupado por Torres. Mas Mansur só ficou no posto por cinco dias.

Numa tentativa de apaziguar os ânimos, a Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, que reúne os grão-mestres de todos os Estados, reuniu as duas lideranças e propôs um acordo. A suposta declaração de paz, com a revogação dos decretos que suscitaram a crise, foi assinada em novembro.

Mas a disputa continua, embora os envolvidos na briga desconversem. "Isso é coisa do passado e foi resolvida internamente", disse a Época o empresário Jorge Lins. "Não há nenhum ato desabonador contra o grande comendador. Não há dissensão dentro da maçonaria. Há, sim, união", garante Zveiter.

Os dias conturbados que vive a maçonaria acabaram atingindo a Ordem De Molay, organização trazida dos Estados Unidos que promove a formação de novos líderes, com meninos de 13 a 21 anos. Na primeira semana de dezembro, o "irmão" Carlos Monjardim encaminhou à Justiça uma interpelação ao grão-mestre da Ordem, Alberto Mansur, levantando suspeitas de desvio de dinheiro da entidade. Monjardim baseou-se numa auditoria contratada para examinar a contabilidade da organização no período de 1997 a março deste ano. Os auditores teriam encontrado irregularidades, como a compra de um carro em nome da ordem, mas utilizado por Mansur, e cheques depositados na conta pessoal do grão-mestre. "Isso é um absurdo. Coisa desse bando de traidores que está sujando o nome sagrado da maçonaria", rebate Mansur. "Quem rouba não registra todos os gastos nem guarda os documentos que poderiam incriminá-lo. Estou decepcionado com tanta sujeira", desabafa.

Em meio a inúmeras brigas, a maçonaria busca sua redenção em março, quando deve ser escolhido o grão-mestre do Grande Oriente do Brasil. Como candidato forte ao cargo está o senador Francisco Mozarildo, do PFL de Roraima. "Sua eleição poderá representar o início da recuperação da representatividade política que falta hoje aos maçons", diz o historiador José Castellani.

A maçonaria é uma entidade semi-secreta e não-religiosa. Os maçons se dizem detentores de saberes antigos e capazes de encontrar solução para muitos mistérios da vida. "São saberes arcaicos e esotéricos", diz o professor de história das religiões Edgar Leite Ferreira Neto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

A maçonaria brasileira surgiu no fim do século XVIII. Agia, naquele tempo, quase como um partido político. Os maçons tiveram participação fundamental na proclamação da Independência. José Bonifácio de Andrade e Silva, chamado de patriarca da Independência, foi o primeiro grão-mestre do Grande Oriente do Brasil, cargo máximo da maçonaria.

Dom Pedro I e outros líderes da Independência também freqüentaram a organização, ainda que por curto período de tempo. No século XIX, quando a Igreja não fora separada do Estado, ser maçom era, com freqüência, sinônimo de subversivo.

Até hoje existem maçons na política brasileira, mas sua influência tem diminuído com o passar do tempo — e com a modernização dos costumes políticos.