|
E nós estudantes, o que temos ? |
Leonildo Correa - Faculdade de Direito -- 14/05/2007
E nós estudantes, o que temos ?
Há uma frase jurídica que diz: "Na relação entre o forte e o fraco a
liberdade escraviza e o direito liberta". E o espírito dessa frase
levou à criação de uma série de mecanismos jurídicos para a proteção
de hipossuficientes, para equilibrar a relação entre o forte e o
fato no âmbito judicial.
Assim, criaram-se institutos e estratégias no âmbito do Direito do
Trabalho, do Direito do Consumidor, do Direito Civil (proteção de
incapazes e ausentes), etc.
Mas o espírito dessa frase foi mais longe e deu, por exemplo, aos
trabalhadores o direito de greve. Contra a opressão e a tirania do
empregador, os empregados tem o direito de greve.
E nós estudantes, o que temos ? Dispomos de algum instrumento
reconhecido para enfrentar a opressão e a tirania dos diretores e
reitores ? Mas antes de responder isso: a nossa relação com a
universidade é desigual? E por último, diria Lênin, o que fazer ?
A nossa relação com a universidade, inegavelmente, é desigual. Somos
estudantes armados com caneta e papel lutando contra a Reitora, os
assessores da reitoria, os diretores renomados que dizem ("usa a
justiça e a polícia"), os procuradores da USP (tem uma coleção), os
guarda-universitários (armados com rádio), os juízes e os promotores
formados pela USP, o Pinóquio, digo Pinotti (Eu sempre confundo os
dois por causa do nariz), o Joselito Serra e por último, certamente,
a PM com suas espingardas que atiram balas de borracha, gás
lacrimogêneo, Spray de pimenta, etc. Enfim, contra os Estudantes há
o Estado com toda sua força, com toda a sua opressão, com toda a sua
tirania. Inegavelmente, é uma relação desigual, desproporcional:
Estudantes contra o Estado.
E essa relação desigual se mostra, na prática, pela indiferença da
Reitora às nossas reivindicações. Por isso quem pensou na
possibilidade de negociação, enganou-se, pois em uma relação
desigual uma parte ignora a outra. Não há negociação, pois a parte
forte (a Reitora) não vai. O forte ignorou todas as manifestações,
todos os pedidos, etc e diz: "Deixa falar, pois não podem me
atingir".
Mas e os pedidos escritos, os requerimentos ? Também são inúteis em
uma relação desigual. Na maioria das vezes não respondem e se
respondem é para negar, para dizer: "Não". Geralmente completam suas
respostas, principalmente verbar, com: "Procure seus direitos".
E então, surge a pergunta de Lênin: "O que fazer ?" A resposta é só
uma: OCUPAR. Com a ocupação a Reitora abriu um canal para
negociação. Com a ocupação o forte e o fraco se equipararam. A
relação se equilibrou. Agora não só terão que nos ouvir, mas também
terão que atender os nossos pedidos, as nossas reivindicações.
Portanto, a ocupação é um instrumento legítimo que equilibra, na
relação Estudantes x Estado, o fraco com o forte. É um instrumento
democrático porque faz valer os interesses de uma coletividade
contra os interesses de uma minoria dominante.
Contudo, não podemos depender apenas de ocupações para garantir os
interesses e direitos dos estudantes. Precisamos de uma lei que,
assim como fez com a greve, garanta aos estudantes o direito de
ocupação quando a opressão e a tirania dos diretores e dos reitores
forem insuportáveis. Os trabalhadores podem fazer greve. Os
estudantes podem ocupar.
Por isso é fundamental que esse direito de ocupação, assim como o
direito à assistência estudantil, sejam positivados em lei.
Precisamos pensar numa globalização dessa ocupação, ou seja, após
conquistarmos as mudanças locais, aqui na USP, temos que levar nosso
grito para todas as universidades públicas.
Fazendo isso iremos garantir direitos para todos os estudantes
brasileiros e principalmente alcançar o objetivo mais importante:
aprovação de leis que nos protejam contra a força inexorável do
Estado. Precisamos de um direito à assistência estudantil e de um
direito à ocupação.