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Sexo Milenar |
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Helen Fisher -- Veja: Reflexões para o futuro -- 1993
Baseada em seus estudos de 62 culturas, a antropóloga americana aponta para um retorno aos padrões de sexualidade humana praticados nos primórdios da África, milhões de anos atrás. Estamos nos libertando, finalmente, da era dos prazeres desiguais.
O erotismo está morto ? Os sexos podem se entender ? O oráculo está dentro de nós mesmos. Fomos moldados pelo tempo, pela seleção e pela evolução para nos comportarmos de certas maneiras, e boa parte dessa bagagem pré-histórica veio para ficar. Quando observo os modelos humanos de sexo, adultério e romance em culturas do mundo todo, tiro algumas conclusões sobre outros tempos na História que nos podem dar algumas pistas sobre o nosso futuro.
Nos primórdios da África, há milhões de anos, quando nossos ancestrais ainda caçavam animais de grande porte e colhiam raízes e frutas para viver, eles desenvolveram uma espécie de padrão de sexualidade humana. Nossos antepassados mais remotos iniciavam suas experiências sexuais muito cedo. Quando tinham 2 ou 3 anos de idade, viam outras crianças brincando com sexo e provavelmente experimentavam por si mesmos. Chegavam tarde à puberdade, com 16, 17 ou 18 anos, e as jovens só conseguiam engravidar perto dos 20 anos.
O adultério era muito freqüente, tanto para o homem como para a mulher - dentro de um conjunto de regras sobre com quem era permitido ou não cometer adultério. Parentes próximos, é claro, estavam fora de cogitação.
Era comum que a mulher tivesse um filho a cada quatro anos, que é o período natural de espaçamento entre um nascimento e outro na raça humana. As mulheres tinham muitas ajudantes para cuidar dos filhos, como tias e primas. Quando saíam para trabalhar, ou seja, buscar comida, da mesma forma que as mulheres trabalham fora hoje em dia, entregavam os filhos aos cuidados das outras.
Na estrutura da sociedade da época, as mulheres eram tão poderosas quanto os homens, tão sexuais quanto os homens (ainda eram consideradas sexuais depois da menopausa), e o erotismo estava enraizado em suas vidas, em seus mitos, lendas e brincadeiras. Em seu cotidiano havia todos os tipos de simbolismo erótico. Na América do Sul, por exemplo, para as mulheres que trituram mandioca, o vaso ainda é considerado a vulva feminina, enquanto o pilão que soca a raiz representa o pênis masculino. Sexo e romance faziam parte do dia-a-dia.
A grande mudança na maneira como homens e mulheres se relacionam uns com os outros ocorreu com o começo do cultivo da terra, quando nossos antepassados se estabeleceram ao longo das planícies do Crescente Fértil, no Oriente Médio, 8000 anos a.C.. Com a invenção do arado, os povos se fixaram nas terras e a mulher perdeu sua antiga função de buscar alimentos. Perdeu sua independência econômica e seu principal papel passou a ser o de gerar filhos: pequenos agricultores, com mãos pequenas, que ajudavam na colheita dos vegetais.
O papel dos homens tornou-se muito mais importante. Eram eles que guerreavam e aravam o solo, e aconteceu então uma virada - o que era uma igualdade entre os sexos transformou-se em mulheres subordinadas e homens dominadores. O casamento vira uma aliança entre povos, em que a propriedade passa a ser fundida. como os casamentos tinham de ser estáveis e permanentes, começamos a perceber na evolução humana uma mudança real na sexualidade. Além disso, os cônjuges tornaram-se dependentes uns dos outros para trabalhar na terra. Com a agricultura, o homem e a mulher ligaram-se à terra e um ao outro - e sob essas circunstâncias ecológicas emergiu um espectro de novos credos sexuais.
Como o objetivo da mulher era gerar filhos, sua vida sexual se encerrava com a menopausa, algo que constatamos ainda hoje. Vemos a ascensão de rituais diferentes em torno do casamento e da sexualidade. Surge o conceito de virgindade, para o qual muitos povos que ainda hoje vivem da caça e da busca de alimentos não têm sequer um vocábulo próprio. Junto com essas mudanças nas práticas sexuais instalaram-se dois preceitos: "Honre o Teu Marido" e "Até que a Morte nos Separe".
O despontar dessa nova situação cultural trouxe, de fato, um declínio real no erotismo e na sexualidade, a associação do sexo com o pecado e do celibato com a religiosidade.
Foi com o início da Revolução Industrial que homens e mulheres começaram a trazer dinheiro para a casa - propriedade móvel e divisível. Hoje, podemos observar um retorno ao nomadismo e ao modo de vida da caça e da busca de alimentos. O que nos traz um retorno à sexualidade que nossos ancestrais cultivavam. O lar não é mais o local de produção. Não criamos as galinhas nem plantamos os brócolis que comeremos no jantar. Em vez disso, caçamos e buscamos comida no supermercado.
Nossa tendência é migrar do trabalho para casa, para a escola, para a casa de veraneio. Somos muito nômades. Tendemos a nos divorciar muito mais regularmente e então nos casamos de novo - é o inacreditável triunfo da esperança sobre a experiência, esse otimismo que sentimos em relação ao nosso próximo relacionamento. Temos menos filhos e o espaço de tempo entre um nascimento e outro é cada vez maior. A sexualidade feminina está se tornando muito mais proeminente.
As mulheres estão realmente exigindo mais orgasmo. Não toleram mais a duplicidade do adultério. Estamos começando a compreender que o sexo continua e na prática pode até crescer depois que os filhos estão criados e a mulher começa a envelhecer. Nesses aspectos estamos avançando em direção aos meios de sexualidade que tivemos há milhões de anos na África.
Todos nós queremos saber para onde o próximo século nos levará. Estudei o divórcio em dezenas de culturas do mundo todo e encontrei numerosos modelos de separação nos mais diferentes tipos de sociedade. Observo que o conceito de desunião não nasceu hoje. Existem padrões de relacionamento que se repetem através dos tempos. Convém conhecê-los. Temos um impulso em relação ao amor, um impulso para nos unirmos a alguém, os relacionamentos longos nos provocam inquietude, tendemos a rompê-los por volta do quarto ano de casados, tendemos a romper quando somos jovens, aos 20 anos, tendemos a nos divorciar quando não há filhos, ou há um único filho, e também temos a tendência de permanecer juntos na medida em que envelhecemos, que nosso casamento se torna mais longo e temos muitos filhos. Se sobrevivermos enquanto espécie, essas tendências nos acompanharão por mais de um milhão de anos.
Também acredito que estamos ficando mais eróticos, não menos. Diz-se dos adolescentes de hoje que eles estão expostos a zilhões de megabytes de informações sobre sexo e que essa overdose irá atrofiar seu senso de exploração e experimentação. Não é verdade. De uma perspectiva antropológica, durante milhões de anos os filhos de nossos ancestrais estiveram expostos à cena de seus pais fazendo sexo, lado a lado, apertados na pequena cabana que abrigava a família inteira. Estavam expostos às cenas em que seus pais comemoravam o sucesso de uma caçada com danças sexuais explícitas ao redor do fogo e a todos os tipos de comunicação sobre sexo e adultério quando estavam reunidos com suas mães. É difícil ter privacidade quando se viaja em pequenos bandos e o sexo é uma parte muito visível da vida.
Em seu cotidiano, as crianças aprenderam coisas valiosas sobre a sexualidade. Nossos parentes próximos, os chimpanzés, dificilmente se tornam parceiros sexuais aceitáveis se crescem numa atmosfera em que não há sexo. Nos primatas mais desenvolvidos, simplesmente observar e absorver o que se passa ao seu redor, sexualmente falando, é fundamental para a escolha do parceiro.
Não me surpreende que haja uma grande dose de sexualidade nos anúncios, na televisão, nas nossas canções, em filmes e livros. Na verdade, precisamos de mais educação para o sexo. As aulas de educação sexual oferecidas nas escolas são artificiais. A televisão vive mostrando cenas de romances tórridos, mas raramente vemos mães contando para suas filhas as coisas boas da vida sexual, e os pais também pouco falam com seus filhos sobre o assunto. Apesar das aparências de uma overdose de erotismo no mundo cultural, o que vejo é uma tremenda mostra de puritanismo.
Ainda somos muito ambivalentes em relação a sexo. Nossa religião ainda associa sexo com pecado, celibato com religiosidade, e agora temos, pelo menos nos Estados Unidos, uma nova onda de preocupação com abusos infantis, que faz os pais terem medo de pegar suas filhas no colo, sentá-las nos joelhos e conversar com elas.
Esses modelos mudarão muito lentamente, mas há uma força poderosa a favor da mudança: as mulheres que trabalham fora. Quanto mais fortes as mulheres se tornam economicamente, mais serão parceiras ativas em suas vidas eróticas. Elas comprarão vídeos, tentarão novas posições, escolherão homens mais jovens, experimentarão sensações novas como não fizeram desde a longa tradição agrícola - durante a qual se pensava que eram criaturas assexuadas. As mulheres se tornarão mais predatórias.
A evolução em direção à igualdade entre os sexos terá vários efeitos sobre a sexualidade, nenhum dos quais será - como alguns temem - a extinção do erotismo e do ato de cortejar. É verdade que o crescente poder econômico da mulher está complicando nossos romances.
No nosso passado agrícola, e mesmo nos séculos XIX e XX, o papel da mulher estava claramente definido. Os homens ganhavam o pão e as mulheres cuidavam da casa. Agora esses papéis estão confusos. Pense num jantar, por exemplo. Em muitas espécies animais, o macho se apossará de algo comestível e o dará à fêmea para que ela coma e retribua com sexo. Quando o chimpanzé macho pegava um bom pedaço de cana-de-açúcar, a fêmea se aproximava e o encarava impiedosamente, até que ele se sentisse profundamente desconfortável. Finalmente ele cedia a cana-de-açúcar. A fêmea então observava cuidadosamente o alimento, virava-se e fazia sexo com o macho, antes mesmo de comer. Também vemos essa troca de alimento por sexo entre pássaros, lagartos e moscas.
Com a evolução do cérebro humano e todo tipo de normas culturais, não fazemos mais isso. Um homem que leva uma mulher para jantar não deveria esperar uma cópula imediatamente, mas é sempre uma abertura. Todos nós sabemos disso. Hoje, com sua independência financeira, as mulheres estão se comportando de maneira sexualmente tão predatória como há milhões de anos. Só que hoje o mundo desaprendeu a lidar com as regras milenares.
Outra novidade velha: as mulheres procuram bons parceiros para a reprodução. A partir de um estudo realizado em 33 países, concluímos que as mulheres se sentem atraídas por homens que têm riquezas - um traço que se desenvolveu há milhões de anos, quando as mulheres precisavam de alguém que as protegesse dos animais grandes e perigosos e lhes desse carne para alimentar os mais novos. Hoje vemos homens mais velhos que poderiam se aposentar se matando nos escritórios para ganhar um aumento ou manter seus empregos - um impulso que vem da necessidade inconsciente de adquirir e reter riquezas para atrair as mulheres.
Esses rituais do romance ainda nos trarão muitos problemas. Fomos feitos para flertar, e aqui temos uma sociedade na qual mulheres e homens trabalham juntos, dia após dia, nos mesmos escritórios. Talvez não tenhamos sido feitos para isso. Sou uma mulher que trabalha e batalha por maiores oportunidades para as mulheres no mercado de trabalho. Mas como antropóloga devo admitir que, durante nossa longa ascendência de caça e busca de alimentos, os sexos muito provavelmente não trabalhavam juntos.
As mulheres passavam mais tempo colhendo vegetais em companhia de outras mulheres, enquanto os homens caçavam com outros homens. O resultado é que a maioria de nós não está consciente dos sinais potentes de romance que emitimos dentro de um mesmo ambiente de trabalho.
Hoje, num escritório típico, os conflitos só tendem a se multiplicar. O assédio sexual crescerá até que as companhias retreinem seus empregados sobre como agir em relação aos companheiros de trabalho, como sorrir, como não sorrir, como caminhar e como não caminhar, e como tocar ou não outra pessoa.
Mulheres e homens herdaram uma diferença sexual que atrapalhará sua vida romântica. As mulheres ganham intimidade conversando cara a cara - sem dúvida, esse traço vem do hábito antigo de conversar com os mais jovens. Os homens, por outro lado, adquirem intimidade fazendo coisas lado a lado - como jogar ou observar a prática de esportes. O que é um jogo de futebol senão uma ação espacial e competição agressiva, como era a caçada para os nossos ancestrais ? Na verdade, sentar lado a lado com alguém para assistir a um jogo de futebol pela televisão não é muito diferente de plantar-se atrás de um arbusto na selva africana, tentando adivinhar em que direção o antílope correrá.
Às vezes os dois gêneros confundem esses estilos de intimidade. Os homens quase sempre pensam que as mulheres falam demais, enquanto as mulheres se sentem abandonadas porque seus maridos assistem ou praticam esportes. Talvez, entrando no século XXI, comecemos a tirar vantagens do conhecimento dessas diferenças de gênero.
Algo que me surpreende é quão pouco a crise da AIDS afetou, relativamente falando, as nossas práticas sexuais. Se hoje à noite a televisão transmitisse a notícia de que a alface provoca morte, suspeito que nenhum cidadão no planeta comeria alface outra vez. Muitos de nós sabemos que a AIDS mata. Mesmo assim, nos Estados Unidos uma pesquisa revelou que somente cerca de 50% dos homens e mulheres mudaram seus hábitos sexuais. Que testamento para o impulso humano em direção ao sexo !
Não penso que o nosso impulso para o amor ou o desejo pelo sexo se dissipará no século XXI. O amor é ancestral e deixou marcas profundas no cérebro. Nos centros emocionais do cérebro existem receptores e as moléculas que provocam a euforia associada ao primeiro estágio do amor, a paixão. Também no cérebro estão os receptores e moléculas que desencadeiam os sentimentos de paz e conforto associados ao segundo estágio, o afeto. É pouco provável que a fisiologia do cérebro para o amor seja afetada por algum novo evento cultural, político ou científico.
Seremos felizes ? Com o poder crescente da mulher, a sexualidade feminina emergente, e um ambiente em que se pode consolidar parcerias excitantes, não vejo razão para não sermos felizes. Um estudo recente entre casais americanos mostrou que uniões bem-sucedidas tendem a ter algumas coisas básicas em comum. Entre elas estão sexo freqüente e diálogos freqüentes. Por que adiar essa receita até o ano 2000 ?